Infidelidade: o que costuma estar por baixo de uma traição
Uma traição raramente é só sobre sexo.
Quando acontece uma infidelidade, a primeira leitura é quase sempre a mais simples: alguém quis algo que não devia e foi buscá-lo fora. Mas quem trabalha com casais sabe que, por baixo da superfície, costuma estar algo mais complexo. Um caso extraconjugal é, muitas vezes, uma forma inconsciente de comunicar algo que não se conseguiu dizer por palavras — ou de resolver, por fora, algo que nem sequer é sobre a relação.
O sintoma e o problema
A infidelidade é frequentemente um sintoma de um problema que já existia, e não a sua causa. Vazio, distância, conflitos por resolver, desejos não ditos — quando estas coisas não encontram forma de ser faladas, podem encontrar uma saída por outro lado.
Isto não retira responsabilidade a quem foi infiel. Ajuda apenas a perceber que tratar só o sintoma raramente resolve o que ficou por baixo.
Tipos diferentes, significados diferentes
Um dos pontos mais úteis é perceber que nem todas as infidelidades são iguais. Cada uma costuma comunicar algo distinto — por exemplo, evitar o conflito que o casal nunca aprendeu a ter, manter a intimidade a uma distância segura, ou abrir uma porta de saída de uma relação que já se desejava terminar.
Perceber o que uma traição está a tentar dizer é, muitas vezes, mais revelador do que o acto em si.
Nem sempre é a relação que está em causa
Há uma ideia muito difundida de que a infidelidade é sempre sinal de uma relação em sofrimento. É verdade em muitos casos — mas não em todos, e insistir nisso pode ser profundamente injusto para quem foi traído.
Existem pessoas que traem em relações que estão, objectivamente, bem. Não há distância, não há conflito por resolver, não há vazio conjugal evidente. E, no entanto, acontece. Nestes casos, o que está em causa não costuma ser a relação: é a forma como a pessoa se vê a si própria.
Quem tem uma autoestima frágil pode depender da atenção e do desejo dos outros para sentir que vale alguma coisa. Não é o outro que se procura — é a prova. A prova de ser desejável, de ainda contar, de não ser invisível. O parceiro, por mais presente e afectuoso que seja, deixa de conseguir fornecer essa prova: precisamente por já estar lá, o seu olhar deixa de funcionar como confirmação. É preciso alguém novo, de fora, que ainda não sabe nada — porque só o olhar de quem ainda não conhece parece genuíno.
O problema é que esta procura não tem fim. A validação que se obtém desta forma é intensa e curta. Passa depressa e exige repetição. Daí que, nestes casos, a infidelidade tenda a ser recorrente e a mudar de pessoa, sem que nada na relação principal explique o padrão.
É também por isto que, nestas situações, a terapia de casal isolada costuma ser insuficiente. Pode reparar a relação, mas não toca no que a alimentou. O trabalho tem de incluir um percurso individual sobre autoestima, sobre a necessidade de aprovação externa e sobre a origem dessa necessidade — que quase sempre é anterior à relação actual e, muitas vezes, anterior à vida adulta.
A dor é real — e o caminho também
Nada disto diminui a dor de quem foi traído. A descoberta de uma infidelidade é uma das experiências mais avassaladoras numa relação, e a confusão, a raiva e a perda de confiança são respostas legítimas.
Convém também dizer com clareza: compreender não é desculpar. Explicar o que levou alguém a trair não transforma a traição em algo aceitável, nem torna a pessoa traída responsável pelo que aconteceu. São duas coisas separadas — e confundi-las é uma das formas mais eficazes de prolongar o sofrimento.
O que esta abordagem oferece é esperança fundamentada: muitos casais, quando dispostos a olhar honestamente para o que aconteceu — e para o que já não estava bem antes, se é que não estava —, conseguem ou reconstruir a relação sobre bases mais sólidas, ou terminá-la com mais dignidade e clareza.
Quando procurar ajuda
Atravessar isto sozinho é extraordinariamente difícil, precisamente porque as emoções estão em carne viva e a comunicação, muitas vezes, já estava fragilizada.
Um espaço terapêutico — individual ou de casal — permite compreender o que aconteceu sem o peso da acusação constante, e decidir, com mais clareza, que caminho faz sentido a seguir. Em algumas situações faz sentido começar em conjunto; noutras, sobretudo quando o padrão se repete, o trabalho individual vem primeiro.
Quer a relação continue ou termine, perceber o que esteve por baixo é o que evita repetir o mesmo padrão no futuro.